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segunda-feira, 27 de julho de 2015

ENTREVISTA: Bandanos (crossover SP)

Seguindo com as entrevistas que além de trazer as novidades e falar sobre a história das bandas, abordam questões ideológicas, trazemos um pouco sobre o que pensa o Bandanos. A banda que possui 13 anos de correria, e está em mais uma tour, separou um tempo pra responder algumas perguntas e nos deixou muito felizes com as respostas (demos ótimas risadas). Confira!

SCUM - O underground brasileiro, foi um celeiro de bandas de protesto, que lutavam pela igualdade muito forte. Ultimamente muitos integrantes de bandas e mesmo o público tem apresentado um comportamento mais conservador e muitas vezes de expressões de ódio contra negros, LGBT´s, por muitas vezes sendo também machistas e classistas (por mais irônico que isso possa parecer). A que vocês atribuem essa mudança de comportamento? Como é a reação do público frente a postura do Bandanos?

Lauro: Cara, creio que esse tipo de atitude seja um reflexo das bandas que ultimamente tem aparecido na “cena hardcore” (digo isso entre aspas pois em hipótese nenhuma considero isso hardcore). Bandas que se utilizam de bandeiras, próprios discursos de direita, homofóbicos e até nazistas/racistas. O hardcore que eu conheci, tem uma postura mais libertaria (não necessariamente anarquista), uma contracultura de tudo que achamos errado e questionamos em nossas músicas e tomamos como modo de vida essas mudanças como boicote (à multinacionais, crueldade animal, drogas etc). Não freqüento mais a cena hardcore como antigamente, mas vejo muita coisa ruim, muitos valores que antes questionamos, sendo trazidos pra dentro do HC. Hoje é mais importante a pessoa ir com um tênis importado, uma camiseta daquela banda gringa, mas não acredito que essas mesmas pessoas gastem seu tempo lendo algum livro, se informando de forma positiva... espero estar errado nesse aspecto que falo agora!

Helder: Não acho que se trata de mudança de comportamento. Acho que por conta do assunto nos últimos tempos ter ganhado bastante espaço para discussão, muito por conta das redes sociais de hoje, muitos apenas começaram a revelar suas posturas racistas, homofóbicas, preconceituosas em geral, tudo fruto de uma sociedade que há tempos é assim em sua maioria. Há muito da tradição do discurso religioso também por trás desses preconceitos e tantos aspectos reacionários, a maioria sequer não para pra pensar e repete esses discursos de ódio e preconceito. O Bandanos, ao contrário, leva em seus shows um pouco de reflexão a respeito disso tudo defendendo a liberdade individual acima de tudo, com responsabilidade, claro.

Marcelo Papa: Eu acho que as redes sociais potencializaram isso de uma forma descomunal. Acho que essas pessoas sempre existiram , mas se camuflavam pra “não queimar o filme” ou algo assim. No metal, principalmente!! Mais recentemente o hardcore/punk também. No meio virtual, você está sempre sendo analisado de alguma forma. Lá você pode achar adeptos pra qualquer ideia que vc tiver (pro bem e pro mal) e isso se inflama! Eu continuo acreditando no punk/hardcore que cresci freqüentando. Libertário e contra-cultural. Essa onda reacionária me deixa em alerta. Eu não irei buscar informação no Revoltados On line e nunca irei reproduzir nada desses canais, bandas , pessoas e páginas que pregam o ódio e soltam discursos vazios de tudo que sai na merda da Veja. Quanto ao nosso publico, eu confesso que as vezes não podemos controlar quem nos segue nas redes sociais. Outro dia postei uma foto com alguns queers amigos nossos. Perdemos 17 likes na página. Achei ótimo! Fiz até uma postagem comemorando os “dislikes” e já dando a letra que se mais gente pensasse igual, poderiam pular fora também. Tanto na página, quanto nos shows, sempre deixamos clara a nossa postura. Também pode ser um filtro anti-otário. Sempre divulgamos algo pras pessoas refletirem. Se elas entenderem , ótimo, se quiserem conversar e abrir uma discussão, também estamos aqui. Senão, é só parar de seguir a banda. Ninguém aqui quer catequizar as pessoas, mas realmente não vejo espaço pra gente compartilhar ideias com gente racista, machista e homofóbica. Não esqueci como é ser punk ainda.

SCUM: Do ano passado para esse, vocês tem feito shows incessantemente por todo o Brasil. Quais são as principais semelhanças e diferenças entre o cenário independente de cada região?

Lauro: Para mim, as semelhanças que o underground tem, é a sede de tocar, mostrar seu trabalho levando aquela frase do Conquest For Death “Many nations, one underground”. O que percebemos a respeito de regiões, são que as cidades pequenas o público chega pra trocar uma ideia, conversa conosco nas banquinhas de merch que montamos nos shows. Após os concertos vem nos abraçam, mesmo suados e fedidos. Não que as grandes metrópoles não façam isso, muito pelo contrário, nos recebem tão bem quanto as cidades pequenas. Porém são mais acatadas as pessoas, que não sei se por vergonha ou frieza não chegam pra conversar. Isso não é via de regra também! Agora, se tem equipamento grande ou pequeno isso não faz diferença pois já fizemos shows muito bons com equipos “simples” e shows ruins com equipos profissionais!

Helder: A principal semelhança parece ser a disposição de alguns ainda em tentar, mesmo em tempos em que a tecnologia domina o tempo das pessoas, fazer acontecer um show, evento, rolê, encontro... para as pessoas estarem mais próximas, curtir um som, ver as propostas das bandas que se apresentam... Os coletivos ainda estão por aí fazendo um bom papel quanto a tentar juntar as pessoas em prol de algo maior que as individualidades delas.

SCUM: Recentemente Mike Clark do Suicidal Tendencies, publicou uma foto usando uma camiseta do Bandanos. Como foi para vocês ter o reconhecimento de um ídolo?
Lauro: Poxa Mike Clark é uma referencia para todos nós do Bandanos que piramos tanto nesse visual Venice quanto nos estilo crossover de tocar. Proximo passo é fazer o Lemmy do Motorhead usar uma camiseta da banda hahahaha!

Helder : Se não fosse o Suicidal Tendencies na minha orelha no ano de 1988 quando escutei o Join the Army pela primeira vez, certamente eu não estaria no Bandanos, talvez sequer teria conhecido o Marcelo Papa, o Cris e o Lauro. Então depois de tanta devoção e adoração ao Suicidal, ver o Mike Clark no estilo mais cyco usando a camiseta do Bandanos é surreal!!! Esse é o aspecto da globalização da informação no mundo que é positivo! Hoje é possível saber o que acontece nas mais variadas cenas mundo afora, e consequentemente o Bandanos acabou sendo conhecido pelo cara que é uma das maiores influências de riffs e levadas de guitarra para o Bandanos. Eu toco um pouco de guitarra também, então consigo perceber a genialidade desse cara com o instrumento! Se existe um cara no mundo que eu gostaria de apertar a mão também é o Mike Clark.


Marcelo Papa: Imagina um cara velho surtando? Foi isso que rolou quando abri nossa caixa de mensagens e tinha um texto do Mike Clark falando algo assim : -“ E ai, caras! Mike Clark falando aqui! Gostaria de TROCAR material com vcs! Tenho discos do ST, No Mercy pra enviar. Podem me mandar discos, camisetas e bandanas?” – hahahahaha . Bicho!! TROCAR? Nem esperei! Fiz uma caixa com tudo que tínhamos na semana seguinte. Eu sempre falo que esse cara é o maior riffman do Crossover. É a maior influencia que eu tive. Meu pai me enchia o saco pra aprender a tocar. Eu pagava de muleque radical e falava que não queria , mas escondido eu pegava o violão dele e ficava fazendo umas bases. Quando apareceu uma fitinha com o “controlled by hatred” eu fui a loucura! Isso me incentivou a tocar! Do outro lado da fitinha , tinha o “join the army”, que é animalesco, mas na moral, a partir do “ how will... ‘ o ST virou outra coisa, as palhetadas do Clark fazem a diferença! Mudou minha forma pensar em musica.




SCUM:  Nesses 13 anos, o Bandanos passou por uma mudança na formação, chegou a parar por um período, mas voltou com força total. Quais foram os piores perrengues que vocês já passaram? E qual foi o momento inesquecível?

Lauro: Posso falar que os piores momentos que passamos, foi uma vez (uma não mais de uma vez, mas deixa esse detalhe pra lá) que perdemos o vôo para Brasília, que eram passagens já compradas ida e volta. Enfim, a vontade de tocar la era tão grande que resolvemos tirar do bolso pra voar pra lá. Conseguimos chegar aos 45 minutos do segundo tempo. Show brutal em Brazlandia, com uma galera que ficou esperando a gente até tarde da noite. Enfim, hora de voltar chegamos no aeroporto e constamos que por perder o vôo de ida, automaticamente o vôo de volta fora cancelado. Acho que nunca rolou tanto estresse quanto naquele dia. O momento inesquecível daquele role foi, comer toda a geléia de morango que a mãe do Márcio (Prod. Do evento em na cidade) fez para o Bill (Nosso Roudie) e ele não pode comer, por causa do vôo.


Helder: Como faço parte da banda num período mais recente, o que posso dizer que o maior perrengue é constantemente aguentar o Papa e o Cris enchendo o saco (risos, muitos!) Se o Lauro fosse cristão certamente ele iria pro céu com honra ao mérito, mas... Pra citar uma história, até agora o pior perrengue acho que foi uma discussão entre os dois às 5h da matina depois do nosso último show de 2014, em Anápolis, em Goiás. Os dois começaram a discutir e estavam por um fio de saírem no soco... lavaram uma roupa suja de uns 20 anos... Affeeee... não tínhamos pra onde ir, onde dormir, o que comer, no meio de Goiás... e os dois parecendo dois irmãos brigando e discutindo porque um deles "comeu a última bolacha do pacote", e eu e o Lauro resolvemos sentar na praça pra assistir aquele evento horroroso... hahahaha... Ufa, a banda quase acabou! Agora eles se amam de novo!

Marcelo Papa : HAHAHAHA!! Quanto a esses depoimentos em que estou envolvido, vou ficar calado! Eu citaria nossa tour pelo Nordeste em 2009, ainda com outra formação. Compraram nossas passagens de ida, e falaram que assim que chegássemos por lá, teríamos as de volta. Mas...adivinha? Claro que as passagens não foram compradas. Como sempre falo, o underground não tem contrato e só a palavra, nós acreditamos e , pra variar, nos fodemos tirando ( MUITA) grana do bolso pra voltar. Esse foi um fator pra banda dar um tempo. Gerou uma atrito interno entre nós. O Lobinho e o Bucho ficaram desanimados (além de assumir que estão velhos pra tocar tanto quanto queremos...hahah). Ficamos 7 meses em processo de troca de membros e voltamos com força total logo depois. Mas temos muito mais coisas boas do que ruins pra contar. O saldo é muito positivo, não tem nem comparação.



SCUM:  Indiquem 3 bandas nacionais que vocês realmente ouçam no dia a dia (essa é uma pergunta de praxe).

Lauro: Cara sempre que escuto essas bandas eu me remeto aos shows muito legais que fizemos junto com elas. Vulcano foi uma banda qie eu escutava por anos e tive o prazer de tocar e viajar com os caras. Foi um show histórico pra mim. Tirei Zero, uma banda de Goiânia muito fudida também, que logo mais sairá um play... hardcore rápido e sem frescura. O DCH (vulgo Heresy brasileiro), tivemos a oportunidade de tocar com eles duas vezes esse ano e além de fazerem um fastcore violento, são pessoas muito queridas, os muleks zikas mais gente boa que a gente conheceu em todo o role!

Helder: Meu gosto é bem variado, então eu quase sempre deixo meu player no aleatório, gosto de ser surpreendido, de ouvir algo que nem lembrava mais. Nessa semana escutei Ratos, Grinders e Korzus. Sepultura também sempre acaba rolando, e por aí vai! Uma vez por mês eu reassisto ao show desses caras em Barcelona, em 1991! Aquilo foi maravilhoso! Vale a pena conferir!


Marcelo Papa: “Statues on Fire” de Santo André. Uma banda que escutei esses dias e certeza e vai ficar no play list por uns tempos é o “Deadtrack”, de Uberlândia. Tipo um Toxic Holocaust brasileiro! Fodasso! Também não posso deixar de escutar meus filhos do” DCH” e “GeorgeXRomero”.

SCUM - Obrigado pela atenção. Esse espaço é de vocês! Deixem uma mensagem, passem contatos... Aproveitem como bem entenderem.}

Lauro: Muito obrigado ao Scum Zine pelo espaço cedido. Esse tipo de informação ainda é um importante veículo de informação, sem rabo preso com grandes mídias de massa, o que torna essa informação mais integra possível, não desviando dos verdadeiros objetivos e valores descritos. Pra galera, deixar bem claro que a música é uma arte, sendo isso não tem como mensurar ou qualificar num sentido de competição. Na arte não existe competição. Leia muito; leia das letras que a sua banda favorita escreve, leia livros como base de referencia de informações, leia os ingredientes que você consome (as vezes você ingere veneno e nem sabe) leia muito e você não será iludido pelo sistema. Povo burro é um povo que deixa usar cabresto!

Helder: Não render-se jamais! Essa é a vida. Seleção natural, a vida seleciona os mais fortes, portanto a resistência tem que continuar. Resista e seja forte! E lembre-se: a força vem sempre do conhecimento, da cabeça, não de punhos e pontapés a esmo por aí!

Marcelo Papa : Obrigado demais pelas perguntas! Zines ou Webzines, são tão importantes quando as bandas pra manter a cena viva. Procurem Bandanos em : www.facebook.com/bandanos_crossover ou @bandanos_crossover
Grande abraço!